Feriado de Nossa Senhora dos Navegantes reúne tradição católica, sincretismo religioso e identidade cultural

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O dia 2 de fevereiro é feriado municipal em Camaquã em homenagem a Nossa Senhora dos Navegantes, conforme estabelece a Lei nº 1.720/2012, que define os feriados oficiais do município. A data, marcada por manifestações de fé e tradição, também carrega um forte significado cultural ao ser associada à orixá Iemanjá, cultuada nas religiões de matriz africana. Essa relação é fruto do sincretismo religioso construído ao longo da história brasileira e ainda muito presente na Costa Doce.

O feriado nem sempre existiu em Camaquã. Ele foi instituído após uma mudança na legislação nacional que tornou o Dia de Finados um feriado em todo o país. Com isso, abriu-se a possibilidade legal para que o município incluísse um novo feriado local, respeitando o limite previsto em lei. A escolha recaiu sobre o dia 2 de fevereiro, data tradicionalmente ligada à devoção a Nossa Senhora dos Navegantes, muito forte em cidades com ligação histórica e cultural com rios, lagoas e atividades pesqueiras.

Sincretismo religioso e a ligação com Iemanjá

Embora a procissão e a celebração de Nossa Senhora dos Navegantes tenham origem na tradição católica, a data também acolhe devotos de diferentes crenças. No Brasil, desde o período colonial, Nossa Senhora dos Navegantes foi associada a Iemanjá por meio do sincretismo religioso. Essa prática surgiu como uma estratégia de resistência dos povos africanos escravizados, que passaram a cultuar seus orixás de forma velada, associando-os a santos católicos para evitar perseguições.

A ligação entre as duas figuras se dá principalmente pela relação com as águas. Enquanto Nossa Senhora dos Navegantes é invocada como protetora dos marinheiros, pescadores e viajantes, Iemanjá é um orixá feminino ligado aos mares e oceanos, considerada a grande mãe e, em muitas tradições, mãe dos demais orixás. Apesar da associação popular, as duas pertencem a sistemas religiosos distintos e não possuem equivalência teológica, representando formas diferentes de compreender o mundo e a espiritualidade.

Tradição na Costa Doce e no Sul do Estado

A celebração do dia 2 de fevereiro é especialmente marcante em cidades da Costa Doce e do litoral gaúcho, onde a relação com as águas faz parte da identidade local. Além de Camaquã, diversos municípios do Rio Grande do Sul também adotam o feriado nesta data, entre eles Amaral Ferrador, Barra do Ribeiro, Cachoeirinha, Canoas, Guaíba, Pelotas, Rio Grande, São Lourenço do Sul, Tapes, Tramandaí e Torres, entre outros.

Na região, algumas cidades aderem oficialmente ao feriado, como Amaral Ferrador, Arambaré, Camaquã, São Lourenço do Sul e Tapes. Já em municípios vizinhos, como Cerro Grande do Sul, Chuvisca, Cristal e Sentinela do Sul, o funcionamento é normal. Em Dom Feliciano, o dia é considerado ponto facultativo.

Fé, cultura e convivência religiosa

O feriado de Nossa Senhora dos Navegantes vai além do calendário oficial. Ele representa um momento de expressão da fé católica, mas também reflete a convivência entre diferentes tradições religiosas que compartilham a mesma data. A associação com Iemanjá, permanece viva na cultura popular, evidenciando como o sincretismo religioso moldou práticas, símbolos e celebrações que fazem parte da identidade histórica da região.

Assim, o dia 2 de fevereiro se consolida como uma data que une devoção, memória histórica e diversidade cultural, reafirmando o papel de Camaquã e da Costa Doce como territórios marcados pela relação com as águas e pela pluralidade de crenças.

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