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EXCLUSIVA: Restos mortais de Bento Gonçalves podem voltar para a região de Camaquã

Restos mortais de Bento Gonçalves podem voltar para Camaquã

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Os restos mortais de Bento Gonçalves, herói da Revolução Farroupilha, podem voltar para a região de Camaquã. Atualmente, seu mausoléu está localizado em Rio Grande.

A possibilidade foi levantada por familiares do general farroupilha, que demonstraram descontentamento com a conservação do mausoléu e também apontaram uma contradição na nomenclatura do local onde o mausoléu está localizado.

“Nossa ideia é que a Prefeitura faça a sua parte e nós podemos ajudar em uma parceria público-privada. Queremos que os princípios que nortearam a ida dos restos mortais para Rio Grande sejam cumpridos”, diz o tataraneto de Bento Gonçalves e presidente da associação de familiares de Bento Gonçalves, Raul Justino Ribeiro Moreira.

Além de melhorias na limpeza, segurança e iluminação, a família também reivindicou a criação do “Largo General Bento Gonçalves”.

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Segundo Raul, o túmulo está em uma praça que homenageia um dos principais opositores do general, o Marquês de Tamandaré, que lutou contra os Farrapos.

Caso as solicitações não sejam atendidas, a associação pretende retirar os restos mortais da cidade.

“Se nada acontecer em Rio Grande, Bento pode voltar para sua origem, onde estava sepultado, em Camaquã. Ou abrimos uma nova concorrência para o município que oferecer melhores condições. Mas isso na hipótese de não andar a revitalização”, explica Raul.

Pela forte ligação com a região, Camaquã e Cristal aparecem como candidatos mais “óbvios”.


Quem foi Bento Gonçalves?

Bento Gonçalves da Silva (1788–1847) foi um militar, estancieiro e líder principal da Revolução Farroupilha (1835-1845), o mais longo conflito civil brasileiro.

Primeiro presidente da República Rio-Grandense, combateu o Império buscando maior autonomia para o Rio Grande do Sul.

Com isso, tornou-se um dos maiores heróis e símbolos da história gaúcha.


Morte e sepultamento

Bento Gonçalves faleceu em 18 de julho de 1847, aos 58 anos, na região de Pedras Brancas (atual município de Guaíba).

A causa da morte foi pleuris (uma inflamação pulmonar), após um período de reclusão devido a problemas respiratórios.

Logo após a morte, ele foi sepultado na Estância Cristal, localizada em Camaquã.

A área, atualmente, pertence ao município de Cristal e abriga o Parque Histórico General Bento Gonçalves.

Ele permaneceu sob os cuidados do filho Joaquim Gonçalves da Silva, até sua mudança para Bagé, por volta de 1890. Depois disso, a responsabilidade passou ao irmão, Caetano, que permaneceu na estância até seu falecimento.

Após sua morte, a guarda ficou com Maria Azambuja, sua esposa. Foi ela quem fez a doação em 1900, momento em que os restos mortais foram levados para Rio Grande.

Em 21 de agosto de 1900, os despojos foram colocados em uma urna de mármore e guardados na Intendência Municipal.

Os restos do líder farroupilha permaneceram assim por nove anos, até a inauguração do seu monumento-túmulo definitivo, em 20 de setembro de 1909, na Praça Tamandaré.


Monumento de homenagem a Bento Gonçalves

A nova Constituição estadual gaúcha, de 1891, previa a construção de um monumento em homenagem a Bento Gonçalves.

Segundo o historiador Juarez José Rodrigues Fuão, autor da obra “Monumento-túmulo a Bento Gonçalves da Silva: da Invenção do Herói à Disputa pela Memória”, esse monumento não tinha um local pré-definido: “Podia ser qualquer cidade, desde que se tivesse o projeto e dinheiro”.

A partir de então, foi iniciada uma mobilização para a construção do monumento. A iniciativa foi liderada pelo historiador rio-grandino Alfredo Ferreira Rodrigues, principal pesquisador da época sobre a Revolução Farroupilha.

Em 1900, com a chegada dos restos mortais à cidade, o projeto original, que era apenas de um monumento de homenagem, passou a incorporar também o túmulo do general.

O processo de escolha do local em que ficariam os restos mortais ocorreu em 1903, três anos após o traslado dos restos mortais para Rio Grande.

Na ocasião, a comissão organizadora convidou escultores de diferentes partes do mundo a enviarem propostas.

O vencedor foi o renomado escultor António Teixeira Lopes, de Portugal, cuja proposta foi selecionada para executar a obra.

Com o escultor escolhido e os restos mortais já em Rio Grande, teve início o debate sobre a localização do monumento.

Segundo Fuão, isso gerou uma grande polêmica na cidade, uma vez que parte da comissão defendia que a obra fosse instalada na Praça Xavier Ferreira, outro grupo optava pela Praça Tamandaré.

“A história da escolha da Praça é uma das mais conturbadas. Enquanto um grupo queria a Xavier Ferreira, outro grupo queria a Praça Tamandaré. Só que Alfredo Ferreira Rodrigues queria que fosse na Xavier Ferreira, ele sai muito irritado, porque acabou sendo escolhida a Praça Tamandaré”, detalha Juarez Fuão.

A revolta do historiador, provalmente, foi pela clara contradição do monumento estar localizado em uma praça que homenageia um opositor (leia abaixo).


A controvérsia envolvendo o local atual

O fato dos restos mortais de Bento Gonçalves repousarem em Rio Grande é recheado de controvérsias. E algumas delas são bastante óbvias.

A primeira delas é a própria cidade de Rio Grande. Bento Gonçalves, que foi um dos principais líderes do levante separatista que criou a República Rio-grandense e resultou na Guerra dos Farrapos está enterrado na cidade que foi um dos principais redutos imperiais.

Durante a Revolução Farroupilha, o império utilizou Rio Grande para controlar o acesso naval ao interior e garantir rotas seguras para tropas e suprimentos.

Bento Gonçalves foi um dos líderes que combateram os imperiais.

A segunda polêmica está relacionado ao local onde o seu mausoléu está: a Praça Tamandaré.

Praça Almirante Tamandaré e o monumento para Bento Gonçalves
Praça Almirante Tamandaré e o monumento para Bento Gonçalves. Foto: G1 / Reprodução

Ela homenageia Joaquim Marques Lisboa, o Marquês de Tamandaré, um dos principais defensores do império.

Tamandaré lutou contra os farrapos, participando de várias operações navais na região, contribuindo decisivamente para manter o domínio imperial sobre áreas costeiras, incluindo Rio Grande.


Novam mudança?

O descontentamento dos familiares com a falta de preservação do local onde está o mausoléu pode significar uma nova “mudança”.

De acordo com Raul Justino Ribeiro Moreira, se nada mudar, existem duas alternativas: o retorno a Camaquã, cidade de origem dos restos mortais, ou a abertura de um processo para que outros municípios interessados em abrigar o mausoléu apresentem propostas.

O presidente da associação frisa: “O que pedimos é mínimo diante da importância nacional da figura de Bento. Não queremos confronto, mas respeito ao nosso antepassado e à história do povo do Gaúcho”.

A Prefeitura de Rio Grande informou que a comissão para discutir a revitalização do mausoléu será formada até o final de julho.

Em resposta, Raul Moreira mostrou ceticismo. Ele lembrou que em 2017, uma iniciativa parecida foi anunciada, mas não houve nenhuma restauração ou mudança no entorno do monumento.

Com esse impasse, abre-se a possibilidade de uma mudança para Camaquã ou Cristal, municípios em que Bento Gonçalves possui forte ligação.

Em qualquer um destes municípios, não teríamos as controvérsias que cercam o monumento de Rio Grande.

Autor

  • Elias Bielaski

    Jornalista, web designer, consultor de SEO, analista de marketing.

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