O agente secreto | Crítica do filme brasileiro indicado ao Oscar
Compartilhe esta notícia:
“O Agente Secreto” é um dos filmes mais intrigantes e complexos que assisti ultimamente, além de ser extremamente brasileiro (isso é um elogio gigantesco). Confesso que estou tendo grande dificuldade para escrever esta crítica, pois gostei muito — muito mesmo.
Ele consegue transmitir uma “brasilidade” singular: a mistura de sotaques, costumes, a cidade, as roupas, os ambientes… Tudo é profundo e simples ao mesmo tempo.
📲 Participe do nosso grupo no WhatsApp
É feliz e triste na mesma frequência, causando uma mistura de sensações, deixando-nos desconfortáveis, mas também nos dando esperança. É uma obra fantástica.
A foto utilizada como capa deste texto é o primeiro pôster internacional de “O Agente Secreto”, inspirado na obra “Operários”, de Tarsila do Amaral.
Essa referência representa muito bem o filme, simbolizando a exploração dos trabalhadores no período industrial no Brasil (anos 30), rostos anônimos e a perda de identidade.
Isso se reflete perfeitamente no contexto do filme que, além da atuação absurda e assombrosa de Wagner Moura, traz outra protagonista: a memória.
Muitas obras trabalham bem esse contexto de “brasilidade”: “Cidade de Deus”, “O Auto da Compadecida”, “Vidas Secas”, “Central do Brasil” e “Que Horas Ela Volta?”.
Não estou comparando uma com a outra ou questionando quem reproduziu melhor esse contexto, apenas utilizo o termo para exaltar “O Agente Secreto”.
Contudo, todos os citados têm sua identidade e importância, seja no retrato do frenesi urbano, na crítica social, humor, sotaques, busca pela identidade, resistência do povo ou luta contra a ditadura, dentre tantas outras questões que nos formam e nos representam como país.
O Agente Secreto
Vamos lá… Começando a falar do filme em si: para quem ainda não assistiu, é importante deixar uma coisa clara: não é “Ainda Estou Aqui”. Ter isso em mente ajuda a ajustar a expectativa.
Além disso, é uma obra do Kleber Mendonça Filho e tem “tudo dele” lá. Talvez estejamos vendo sua obra mais madura até o momento — e olha que eu adoro “Bacurau” e “Retratos Fantasmas”.
Por óbvio, o filme bebe muito dessas fontes, como também de obras internacionais, que pouco a pouco vão se infiltrando, seja pelo clímax, pela tensão, mas que em nada atrapalham o andamento do filme ou mesmo causam estranheza como o clássico Tubarão de Spielberg.
A história flui muito bem ao mesclar fatos do passado e do presente. Sob um olhar mais amplo, a trama acompanha uma pesquisa em uma faculdade particular, na qual estudantes e pesquisadores vasculham jornais antigos e gravações, tentando preencher lacunas para reconstruir aquela narrativa.
O protagonista é Armando Solimões (ou Marcelo), um professor universitário e pesquisador da área de tecnologia que está retornando para casa.
Os detalhes do filme
O título “O Agente Secreto” é sugestivo e instiga teorias antes mesmo de assistirmos à obra.
A ambientação em 1977 também é marcante: já havia passado o período mais sangrento da ditadura militar — os “anos de chumbo” do governo Médici, marcados por torturas e desaparecimentos.
Após 1974, o cenário muda: a repressão e o medo persistem, mas o poder econômico e político deixa de ser exclusividade dos militares e passa a se concentrar em uma pequena elite.
Enquanto muitas famílias enriquecem, a desigualdade aumenta drasticamente. As universidades e os professores tornam-se alvos centrais, pois o poder público via neles o berço de grupos “revolucionários” onde o pensamento crítico reinava. Esse é o contexto do nosso protagonista.
Um amigo comentou: “Mais um filme de comunista, sobre a ditadura militar”. Embora ele não esteja de todo errado, não é correto dizer que o filme toma lado, ele não nos dá respostas fáceis.
Elementos como retratos de militares em prédios públicos, o descaso com as massas e a proteção da força de segurança à elite revelam um posicionamento claro.
Fica evidente que, se você não está ao lado deles, torna-se um alvo — algo perceptível, ainda que não totalmente explícito.
A cena de abertura exemplifica isso com maestria; inclusive, é superior a boa parte dos filmes indicados este ano, pois, mesmo sem ser gráfica, carrega um simbolismo perfeito.
Figura 2 Foto de Divulgação
Ao longo do filme, percebemos o mecanismo, o sistema e a corrupção estrutural que formaram o nosso país; a violência institucional da época — que perdura até hoje, a banalização do indivíduo, o medo e a forma como o poder é organizado e mantido nas mãos de poucos.
Sobre a cena em questão, vemos um cadáver em decomposição: sem rosto, sem identidade e sem memória. A força policial surge e ignora a situação, mas não sem antes cobrar um ‘pedágio’ do viajante.
O sistema se impõe e agimos como se fosse algo normal ou aceitável; não estranhamos, pois é assim que as coisas funcionam, inclusive nos dias atuais.
A ambientação do filme
A escolha de ambientar a narrativa durante o Carnaval é particularmente inteligente. Enquanto tensões políticas se desenrolam nos bastidores, as ruas vibram em festa.
O entretenimento convive com a repressão e a celebração coexiste com o medo no mesmo espaço histórico. O Carnaval não representa decadência moral, tampouco uma fuga irresponsável; é, simplesmente, a vida acontecendo.
As nuances, as sensações e o clima de tensão fazem com que as quase três horas de filme passem sem serem percebidas, tamanha a imersão na trama.
Aguardamos até que as cartas sejam postas à mesa e, ao recebermos as informações, percebemos a magnitude dos eventos.
Imaginamos uma perseguição política, todavia, não acompanhamos um revolucionário ou um político; aos poucos, percebemos que Armando, por ser ex-diretor de um departamento relevante em uma universidade federal, torna-se parte da engrenagem, mesmo sem um posicionamento claro.
Além dele, há outros refugiados, todos com identidades duplas, buscando abrigo e segurança até que possam retornar aos seus lares ou encontrar um novo destino. São sobreviventes, tal como a gata de dois rostos e dois nomes que seria sacrificada — assim como todos ali, marcados pela morte.
Esse é um olhar geral sobre a obra, que tem muito mais a dizer e será pauta de muitas discussões. É uma obra sensacional.
SPOILER
Armando morre sem ter encontrado documentos sobre sua mãe; ela termina sem nome, sem rosto, sem memória, como o homem da cena do posto — ao menos sabemos que era uma “índia”.
Também não ficamos sabendo quem matou Armando, e seu filho mal tem lembranças do pai. O cinema onde Fernando assistiu ao filme Tubarão também não existia mais.
A memória é a grande protagonista e, ao longo de todo o filme, ela foi cruel diversas vezes.

Publicar comentário