Pecadores: cultura, ancestralidade, alma, mística e pertencimento

Pecadores: cultura, ancestralidade, alma, mística e pertencimento

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timing é tudo. Terminar este texto logo no dia em que o presidente dos Estados Unidos faz uma das postagens mais absurdas e racistas que alguém da importância e relevância dele já fez — ao menos que eu tenha visto — dá ainda mais profundidade a este filme, que é, de longe, o mais importante do último ano. Pecadores não deve ser o grande vencedor da noite do Oscar, mas deve, sim, fazer um estrago, ganhar vários prêmios; não que isso o torne maior ou menor, mas lhe dá o devido valor que merece. Minha grande aposta para os principais prêmios da noite continua em: “Uma batalha após a outra”, de que ainda iremos falar nesta coluna.

Aqui começamos uma nova etapa, e nada melhor do que falar do filme que mais me impactou em 2025. Confesso que ao ver a dupla Ryan Coogler e Michael B. Jordan, do cru, vil e forte Fruitvale Station, da franquia grandiosa Creed e da valorização e culto à negritude de Pantera Negra e Pantera Negra: Wakanda Forever, eu sabia que algo espetacular estava por vir, mas fui completamente surpreendido.

Existem alguns filmes de que eu procuro me afastar de qualquer propaganda, e foi assim com Pecadores. Ao ver o pôster ou trailer, ficamos com a sensação de que iremos assistir a um thriller com vampiros e ação, mas eu estava completamente enganado; o filme é muito mais que isso.

“Existem lendas sobre pessoas que têm o dom de fazer uma música tão pura, que pode rasgar o véu entre a vida e a morte, invocar os espíritos do passado e do futuro. Na Irlanda antiga eram chamados de bardos, na terra dos Choctaw eram chamados de guardiões do fogo e na África ocidental são chamados de griôs. Esse dom pode trazer a cura para sua comunidade, mas também atrai demônios”.

O filme inicia com um excelente prólogo com flashforward (recurso narrativo onde a cena de abertura de uma história se passa em um ponto futuro no tempo, revelando um evento crucial ou de alta tensão antes de retornar ao presente cronológico para explicar como os personagens chegaram lá).

Nessa cena, somos apresentados a Sammy, que está retornando para casa todo ensanguentado, machucado, destruído psicologicamente, segurando apenas um pedaço do seu violão, e é aí que aparecem os flashs que mostram o horror que ainda iremos presenciar. Ao rever o filme, essa cena acaba se tornando ainda mais genial, uma vez que existe uma clara analogia — que chega a ser extremamente profunda e poética — entre a cena final na água e a sua chegada na igreja.

Pecadores: cultura, ancestralidade, alma, mística e pertencimento
Pecadores: cultura, ancestralidade, alma, mística e pertencimento. Foto: Max / Reprodução

A história se passa em 1932, no Mississippi, fazendo parte do “Sul Profundo” dos Estados Unidos, berço do Blues, além de possuir uma cultura afro forte. Todavia, era um estado extremamente racista, tanto que era conhecido como epicentro das leis “Jim Crow”, conjunto de leis estaduais e locais que perduraram de 1877 até 1965, que impuseram a segregação racial sistêmica, tendo transportes, bebedouros, banheiros, além de escolas e demais instalações públicas para negros e para brancos, onde as destinadas aos negros eram iguais ou piores. O estado do Mississippi foi o último a retirar o emblema da Confederação da sua bandeira, em 2021.

Por incrível que pareça, todo esse contexto aumenta e dá uma maior importância e requinte à obra, pois tudo parece ter sido extremamente bem pensado: o local, a época, os personagens, seus cultos e a sua história.

Neste contexto, conhecemos os nossos dois protagonistas, Fuligem e Fumaça, ambos interpretados por Michael B. Jordan, que passaram quase uma década longe do Mississippi, tendo chegado até Chicago e trabalhado para o bando de Al Capone. Após uma temporada lucrativa, retornaram ao seu estado com a ideia de abrir um bar, um clube de blues para o público negro, e essa é a premissa do filme.

O filme se desenrola como uma excelente trama e, talvez pelo contexto histórico, possamos pensar que a coisa irá para um lado mais supremacista. Sentimos que algo ruim irá acontecer, percebemos que a Ku Klux Klan age na região, e é aí que a coisa piora; vamos para algo próximo de Um Drink no Inferno, temos vampiros…

E dito isso, é até difícil falar sobre, mas isso não importa muito, não se torna um thriller de vampiros com ação, mortes e sangue, vamos para algo atemporal, vamos para o lado da cultura, da ancestralidade. O filme fala sobre pertencimento, alma, mística, o que a música nos faz sentir.

Existe um contraste tão forte entre o que acontece dentro do clube e a música que os vilões apresentam, que também é algo cultural (irlandês), que chega a ser até constrangedor, pois falta algo, falta “alma”. E até aqui o diretor foi perfeito, pois vampiros são seres que sugam, que absorvem, roubam identidade, essência, e é isso que eles buscam, que querem resgatar naquele clube.

Pecadores: cultura, ancestralidade, alma, mística e pertencimento
Pecadores: cultura, ancestralidade, alma, mística e pertencimento. Foto: Max / Reprodução

Cada elemento em Pecadores é um subtexto. Quando pensamos que é um filme sobre blues, não é; quando pensamos que é sobre vampiros, não é; quando pensamos que é para acabar com supremacistas, não é também. Pecadores transcende o terror, transformando a lenda dos vampiros em um espelho da segregação e da apropriação cultural.

Ryan Coogler tem, até aqui, a sua maior obra; utiliza elementos que transcendem o terror para evidenciar como o racismo estrutural tenta drenar a vitalidade e a resistência da cultura negra. Mais do que sustos, o filme entrega uma reflexão visceral sobre passado e presente. O final do filme é perfeito, mas existe uma cena pós crédito que torna tudo ainda mais profundo. Se você assistiu Pecadores e não sentiu nada, ou achou um filme qualquer, talvez não devemos ser amigos.

Pecadores se tornou o filme com mais indicações na história do Oscar. Ainda há uma resistência com relação aos filmes de terror, por este motivo não acredito que possa levar os principais prêmios da noite, mas estarei na torcida. É uma trama que só irá ganhar relevância com o passar do tempo.


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