Um em cada cinco adolescentes no Brasil sofre violência sexual digital, aponta relatório internacional
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Um em cada cinco adolescentes brasileiros entre 12 e 17 anos foi vítima de algum tipo de violência sexual facilitada por tecnologias digitais no período de um ano. O dado representa cerca de três milhões de jovens e integra o relatório Disrupting Harm in Brazil: Enfrentando a violência sexual contra crianças facilitada pela tecnologia, divulgado nesta quarta-feira (4) pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), em parceria com a ECPAT International e a Interpol.
O estudo investigou situações de abuso e exploração sexual em que meios digitais foram utilizados para aliciar, extorquir, produzir ou disseminar conteúdo de violência. Os casos podem ocorrer exclusivamente no ambiente virtual ou combinar interações online e presenciais.
Violência ocorre principalmente pelas redes sociais
Segundo o levantamento, em 66% dos casos a violência aconteceu apenas em meios digitais, principalmente por meio de redes sociais, aplicativos de mensagens e plataformas de jogos online. Instagram e WhatsApp aparecem entre as ferramentas mais utilizadas pelos agressores para abordar as vítimas.
A forma mais recorrente de violência foi a exposição a conteúdo sexual não solicitado, relatada por 14% dos adolescentes entrevistados. Além disso:
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- 9% receberam pedidos para compartilhar imagens íntimas;
- 5% receberam ofertas de dinheiro ou presentes em troca de fotos íntimas;
- 4% sofreram ameaças de divulgação de conteúdos íntimos;
- 4% receberam propostas de conversas de cunho sexual;
- 3% tiveram imagens íntimas compartilhadas sem consentimento;
- 3% receberam ofertas de dinheiro ou presentes em troca de encontros sexuais;
- 3% tiveram imagens manipuladas com uso de inteligência artificial para criação de conteúdo sexual falso;
- 2% foram ameaçados ou chantageados para realizar atos sexuais.
O relatório também aponta que 37% dos adolescentes foram expostos acidentalmente a conteúdo sexual, principalmente em publicações nas redes sociais e anúncios.
Agressor conhecido e silêncio das vítimas
Em quase metade dos casos (49%), o autor da violência era alguém conhecido da vítima, como amigos, familiares ou pretendentes. Entre esses casos, 52% dos primeiros contatos ocorreram online, enquanto 27% começaram na escola e 11% nas próprias casas das vítimas.
O levantamento revela ainda que um terço dos adolescentes que sofreram violência não contou a ninguém sobre o ocorrido. Entre os principais motivos estão a vergonha, o medo, o receio de não serem acreditados e a falta de conhecimento sobre onde buscar ajuda.
Além disso, 15% das vítimas disseram não saber que as situações vividas configuravam crime, e 12% consideraram que o episódio não era “grave o suficiente” para ser denunciado.
Entre os que relataram a violência, 24% procuraram amigos, enquanto 12% recorreram à mãe ou a uma cuidadora e 9% ao pai ou figura masculina responsável.
Recomendações para enfrentar o problema
O relatório apresenta orientações para diferentes setores da sociedade. Entre as recomendações estão o fortalecimento do Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente, a atualização das leis diante das novas tecnologias, a ampliação de canais de denúncia e o investimento em protocolos de atendimento centrados nas vítimas.
Para as famílias, o estudo destaca a importância do diálogo, da escuta ativa e da educação sobre consentimento e segurança digital. Já para escolas e profissionais da rede de proteção, recomenda a inclusão da educação digital e a capacitação para identificar e responder a casos de abuso.
O setor de tecnologia também é chamado a reforçar mecanismos de proteção nas plataformas e ampliar a cooperação entre empresas para prevenir e combater a violência online.
Os dados reforçam a dimensão do problema no país e apontam para a necessidade de ações integradas para proteger crianças e adolescentes no ambiente digital.

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