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A Odisséia: Um dos grandes dramas épicos dos últimos tempos | Review

A Odisséia: Um dos grandes dramas épicos dos últimos tempos

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É difícil encontrar alguém que acompanhe o cinema contemporâneo e não reconheça Christopher Nolan como um dos diretores mais influentes de sua geração. Para muitos que cresceram entre os anos 1990 e 2000, vários dos filmes que marcaram sua formação cinematográfica carregam sua assinatura, no meu caso, Batman: O Cavaleiro das Trevas.

Agora, com A Odisseia, Nolan volta a adaptar uma das maiores narrativas já escritas, entregando uma produção que certamente será lembrada entre os grandes épicos do cinema recente.

Não quero ser inflexível, pois gosto é algo pessoal, mas, independentemente do que você costuma assistir, entre os grandes lançamentos de 2026, A Odisseia divide espaço com produções aguardadíssimas como Vingadores: Doomsday e Duna: Parte 3.

Além disso, o ano conta com excelentes produções que prometem atrair, ou já atraíram, a atenção do público, como Dia D, Toy Story 5, Street Fighter, Verity, O Diabo Veste Prada 2, Homem-Aranha: Um Novo Dia e Supergirl.

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Dirigido por Nolan, A Odisseia baseia-se no poema épico de Homero, uma das maiores obras da literatura grega. A história narra os desdobramentos da Guerra de Troia e o longo regresso de Odisseu a Ítaca.

O filme reúne um dos elencos mais estelares dos últimos anos, contando com nomes como Matt Damon, Tom Holland, Zendaya, Charlize Theron, Lupita Nyong’o, Robert Pattinson e Anne Hathaway.

Algo que pode influenciar significativamente a experiência de cada espectador é o seu estado de espírito no momento. Assisti ao filme duas vezes: na primeira, sem muitas informações prévias; na segunda, mais preparado, o que me permitiu absorver melhor os detalhes da obra.

Ela se conecta ao que os estudiosos chamam de “Ciclo Épico”, um conjunto de histórias contadas e cantadas por bardos na Grécia Antiga. Desses relatos, apenas a Ilíada e a Odisseia sobreviveram completas por mais de 2.700 anos, enquanto do restante restaram apenas fragmentos.

Para contextualizar, apresento um breve resumo dessas obras até chegarmos a A Odisseia:

  1. Cypria: Mostra a origem da Guerra de Troia. Paris, príncipe troiano, é escolhido para julgar qual das deusas do Olimpo é a mais bela: Afrodite, Hera ou Atena. Ele escolheu Afrodite e recebeu como prêmio o amor de Helena, a mulher mais bonita do mundo, que já era casada com Menelau, rei de Esparta. Quando Paris a leva para Troia, os reis gregos se unem e declaram guerra, dando início a um conflito de dez anos. Antes de partir, Agamenon, líder dos gregos, sacrifica a própria filha, Ifigênia, para acalmar os deuses.
  2. Ilíada (Homero): Poema que narra parte do último ano da Guerra de Troia, focando no herói Aquiles, que abandona a luta após se desentender com Agamenon. Pátroclo, amigo (e por vezes interpretado como amante) de Aquiles, é morto pelo príncipe troiano Heitor. A perda faz Aquiles retornar ao combate, desafiar e matar Heitor. O poema encerra com Príamo, rei de Troia, implorando a Aquiles pela devolução do corpo do filho para um sepultamento formal, pedido que é atendido.
  3. Etiópia: Retrata a chegada dos aliados de Troia à guerra. O ponto alto da narrativa é a morte do próprio Aquiles.
  4. Pequena Ilíada: Acompanha os acontecimentos após a morte de Aquiles. Os gregos recebem uma profecia dizendo que Troia jamais cairá enquanto a estátua da deusa Atena estiver na cidade. Após se infiltrar como pedintes e roubar a estátua, surge a famosa ideia do Cavalo de Troia.
  5. Iliupersis (O Saque de Troia): Narra a destruição brutal de Troia, com o massacre de civis e a ruína de casas e templos. O rei Príamo é morto sobre o altar de Zeus pelo herói Neoptólemo, o que representa uma grave profanação. Menelau recupera Helena. Após a vitória, os gregos sacrificam a princesa Polixena na tumba de Aquiles. Tamanhas atrocidades fazem com que até a deusa Atena, até então aliada dos gregos, decide puni-los durante a viagem de volta.
  6. Nostoi (Os Retornos): Narra o regresso turbulento dos heróis gregos às suas terras sob a ira dos deuses. Um dos relatos mais marcantes é o de Agamenon, que ao retornar ao lar é morto por sua esposa em vingança pelo sacrifício da filha do casal.

A Odisseia

  • Principais personagens da obra:
  • Odisseu (Ulisses): Protagonista da jornada de regresso a Ítaca.
  • Telêmaco: Filho de Odisseu e Penélope.
  • Penélope: Rainha de Ítaca, esposa de Odisseu e filha de Icário.
  • Helena de Troia: Rainha de Esparta (esposa de Menelau), cujo rapto por Paris desencadeou a guerra.
  • Circe: Poderosa feiticeira.
  • Atena: Deusa da sabedoria e da guerra, mentora de Odisseu.
  • Calipso: Ninfa apaixonada por Odisseu, que o mantém preso em sua ilha por sete anos.
  • Eumeu: Um dos servos mais fiéis da casa de Ítaca.
  • Sinon: Soldado grego que convence os troianos a colocarem o cavalo de madeira para dentro das muralhas.
  • Menelau: Rei de Esparta, irmão de Agamenon e mentor de Telêmaco.
  • Agamenon: Rei de Micenas e comandante das forças gregas.
  • Melanto: Serva infiel da casa de Ítaca.
  • Antínoo: O mais influente e arrogante dos pretendentes de Penélope, atuando como o principal vilão.

Contexto é essencial

Todo esse contexto é fundamental. Na primeira vez em que assisti ao longa, foi difícil compreender onde estávamos, quem era quem e o motivo de certos personagens serem tão respeitados ou cruciais.

A Odisseia atiçou meu lado nerd. Quanto mais o tempo passa, mais reflito sobre seus desdobramentos, como a forma magistral com que o diretor representou as divindades.

Na adaptação de Nolan, Atena é praticamente a única divindade apresentada de forma física, e a sequência em Troia justifica essa escolha.

Os demais deuses surgem por meio de suas forças da natureza: Nolan compreende que Poseidon é muito mais aterrador quando permanece invisível.

Não há necessidade de materializar o deus dos mares: sua presença é sentida nas ondas gigantescas, nas tempestades e na constante sensação de que o próprio oceano conspira contra Odisseu.

Isso confere a ele uma imponência muito maior do que um corpo físico querendo punir os gregos por suas ofensas, tanto pelo que fizeram na guerra quanto ao seu filho, o ciclope Polifemo.

O mesmo recurso é percebido com Zeus e Hades, tornando o universo narrativo mais crível e palpável.
O filme também dá grande destaque às leis de Zeus. A crise em Ítaca gira em torno da xenia (o código sagrado de hospitalidade).

Esse código determinava que o anfitrião abrigasse e alimentasse os viajantes, enquanto estes deviam agir com respeito na casa que os recebia. Essa conduta era mantida sob o temor da punição divina, já que qualquer andarilho poderia ser um deus disfarçado.

Ao longo das cenas em Ítaca, ouve-se falar constantemente sobre os “povos do mar”. No fim, compreendemos que esses próprios guerreiros da Grécia encarnavam essa força devastadora.

É durante o saque de Troia que nasce aquilo que pode ser entendido como o “pecado original” dos vencedores.

A vitória militar é conquistada às custas da violação dos próprios princípios sagrados que sustentavam tudo, o momento em que aquela civilização desmorona e marca a melancolia do fim de uma era.

Ao usarem o nome de Atena para enganar os troianos e profanarem os templos, eles quebraram as leis sagradas.

A odisseia dos protagonistas

A forma como Nolan trabalha seus protagonistas se mantém brilhante, na linha de A Amnésia (Memento), da trilogia Batman e de Oppenheimer. São figuras traumáticas, assombradas pelo passado e tentando reparar seus erros.

No desfecho, o exílio de Odisseu representa o peso inevitável da culpa que ele carrega. Também merece destaque o impressionante trabalho de efeitos visuais. Em vez de depender excessivamente de computação gráfica, Nolan aposta, mais uma vez, em efeitos práticos e ilusões de perspectiva.

Na ilha de Eéia, por exemplo, diversos animais foram construídos com animatrônicos e modelos físicos, conferindo maior textura às cenas. Já na sequência da ilha dos gigantes, o diretor utiliza atores de estaturas extremamente diferentes para criar a escala dos personagens diante da câmera, reproduzindo um efeito semelhante ao empregado em clássicos como O Senhor dos Anéis.

São escolhas que reforçam a materialidade do mundo retratado e tornam a experiência muito mais convincente.
Em última análise, Nolan transforma um mito milenar em uma experiência cinematográfica visceral.

Ao abandonar representações literais das divindades e concentrar sua narrativa na decadência moral dos heróis gregos, entrega não apenas um espetáculo visual, mas também uma reflexão sobre culpa, honra, trauma e as consequências inevitáveis da arrogância.

O resultado é uma releitura capaz de atualizar o Ciclo Épico para o público contemporâneo sem perder a força da tradição clássica.

Observação Importante

Por fim, vale destacar uma polêmica que pouco tem relação com o mérito artístico da obra. Parte das discussões em torno do elenco concentrou-se em acusações de que o filme estaria “cedendo à cultura woke” devido a algumas escolhas de elenco.

Na prática, porém, essas mudanças não alteram a estrutura da narrativa nem comprometem os temas centrais do poema de Homero.

Grande parte das críticas dirigidas ao elenco acabou revelando muito mais preconceitos relacionados à raça, identidade de gênero e sexualidade dos atores do que qualquer problema efetivo do filme.

Independentemente da opinião sobre essas escolhas, elas têm impacto praticamente nulo na qualidade da adaptação.

Autor

  • José Ari Júnior, colunista do portal Sul360

    Cinéfilo, técnico em automação industrial pelo IFSul Camaquã e graduando em engenharia elétrica.

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